A Spaniard — «Испанец», o Espanhol, para a metade russófona da nossa oficina — é uma Harley-Davidson V-Rod de 2002, o primeiríssimo ano do motor Revolution, o V-twin de 1 130 cc com refrigeração líquida que a Harley desenvolveu com a Porsche. Chegou à Iron Custom Motors, em Cascais, como uma mota com história e saiu como um único objeto preto: reconstruída a partir do quadro entre maio e outubro de 2026, seis meses de trabalho, com cada sistema debaixo da pintura revisto com o mesmo cuidado que as superfícies por cima.
De 2002 a 240
As primeiras V-Rod saíam de fábrica com um pneu traseiro de secção 200. Esta anda sobre a parte ciclística de uma V-Rod de 2012 — forqueta, braço oscilante, as duas rodas e um cubo com deslocamento que permite centrar um 240/40 R18 debaixo da traseira, com um 120/70 R19 à frente. Essa conversão é o esqueleto do projeto: dá à mota a postura das V-Rod tardias e mantém o caráter de 2002 do motor e do quadro. Tudo o resto construímo-lo à volta disso.
Preto sobre preto
A mota foi desmontada por completo e pintada por completo — não «a carroçaria», mas cada peça que se podia pintar: quadro e braço oscilante, todas as peças de plástico da carroçaria, a tampa da caixa de ar a que os donos de V-Rod chamam depósito, as carenagens do radiador e os guarda-lamas, as bombas de travão e de embraiagem, os comandos do guiador, as pinças. O único metal polido que ficou está no motor, e é exatamente essa a ideia: uma máquina em preto mate com as cabeças e as condutas de admissão do Revolution a brilhar lá de dentro.
O body kit inferior — o spoiler de queixo que envolve o radiador — foi adaptado e ajustado à mota a sério, não apenas aparafusado, com redes novas coladas nas aberturas. O banco foi forrado de novo em Alcantara, com pele de padrão carbono nos lados, para que as duas texturas continuem o tema preto sobre preto em vez de o quebrarem.
O que trava, agarra e segura
Pneus Metzeler Cruisetec novos nas duas rodas. Discos de travão Galfer ondulados à frente e atrás, pastilhas novas em todos, kits de reparação nas pinças e nas duas bombas, tubos entrançados nos travões e na embraiagem. Rolamentos das rodas e da coluna de direção novos; a forqueta foi revista enquanto estava fora da mota. Atrás, amortecedores Progressive Suspension. Nada disto se vê do passeio — tudo isto se sente nos primeiros cem metros.
Por baixo da pintura
Uma reconstrução que só repinta a mota é uma repintura. Esta levou o trabalho de motor que uma V-Rod com vinte anos merece: folgas de válvulas verificadas e afinadas, embraiagem nova com o respetivo kit, óleo de motor e filtro de óleo, líquido de refrigeração e um filtro de ar de fluxo livre. O escape recebeu um revestimento cerâmico Cerakote e foi envolvido de novo em fita térmica de grafite; a ponteira leva a marca Iron Custom Motors.
Os pormenores
O guiador assenta em risers mais altos, com punhos novos e espelhos de ponta de guiador. Os piscas são Kellermann; atrás, uma única unidade Kellermann três-em-um faz de stop, farolim e pisca, e o guarda-lamas traseiro fica limpo. Tudo o que o condutor toca — manetes, comandos, espelhos — é preto, e tudo o que não é preto é o motor.
O resultado
Uma V-Rod do primeiro ano com a pegada de um modelo de 2012, a superfície de uma peça fundida inteira e uma mecânica tão fresca como a pintura. Trava como deve travar uma mota com discos, pastilhas e tubos entrançados novos, agarra-se à estrada com borracha fresca e faz do motor Revolution a única coisa para onde se olha. Era esse o briefing, e é essa a Spaniard.